Paul Krugman
A crise não terminou

Em sua palestra, o Prêmio Nobel de economia faz um alerta para o que pode acontecer com o mundo nos próximos anos.

Na palestra que encerrou o ExpoManagement 2009, na quarta-feira, 3 de dezembro, o professor e economista Paul Krugman deu uma aula sobre a crise econômica mundial, suas origens, as soluções adotadas até agora e fez questão de ressaltar: a crise ainda não acabou. “Parece que o mundo não vai acabar e a economia está se recuperando, mas temos de olhar para a frente. Tivemos uma breve melhora, mas ainda não é o fim”, alertou.

Sua exposição começou com um paralelo do mundo entre a Crise de 1929 e a de 2008, quando o colapso visto no setor imobiliário e bancário chegou a níveis parecidos com os vistos nos anos 1930. “Sempre achamos que tínhamos aprendido com a Grande Depressão e que não repetiríamos os erros de nossos avós, mas a crise atual é resultado de algo que fizemos para nós mesmos”, comentou o prêmio Nobel de economia, que a partir daí dissecou os motivos que levaram ao colapso do setor financeiro.

O primeiro passo para compreender a crise, diz Krugman, é a bolha imobiliária tanto no setor residencial quanto no comercial que surgiu no Atlântico Norte, principalmente em regiões como Miami e Los Angeles, nos Estados Unidos, na Espanha e no Reino Unido. “Essa bolha era prevista. O que ninguém percebeu é que quando ela estourasse levaria junto também os bancos”, analisou. “A maneira como os bancos estavam funcionando deixava o sistema exposto”.

A pergunta, a partir daí, é: se o problema era no Atlântico Norte, por que isso levou junto todo o mundo? Simples, diz Krugman: porque há muita troca entre os países. Na crise de 1929, os índices de trocas caíram em 15% nos primeiros 24 meses, contra 18% nos primeiros 15 meses desde abril de 2008. Isso afetou os países que dependiam de exportações, sobretudo os que precisavam exportar, como a Alemanha, o primeiro a ser afetado. Depois, a onda pegou os que dependiam de importações. No balanço final, só não foram tão afetados os países que dependem de exportar commodities – caso do Brasil. “Agora as exportações já voltam a crescer, o que significa que, sim, estamos nos recuperando. Infelizmente, não dá para dizer que estamos no fim da crise”, comentou.

Europa, Estados Unidos e Japão estão, em média, 8% abaixo do que deveriam estar, há muito desemprego, principalmente na Espanha e nos Estados Unidos. E os americanos nunca precisaram de tanto tempo para se realocar no mercado de trabalho como no momento atual. São seis pessoas procurando trabalho para cada novo posto que surge. “É um cenário feio. Tenho até dito para meus alunos que eles estão entrando num mercado que não os quer”, disse Krugman, para quem há um grande risco de a recessão voltar.

Segundo ele, o crescimento que tem sido observado até agora é fruto de algo temporário. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve um aumento na oferta de empregos a partir da oferta de trabalhos na construção de estradas e outras obras estatais. “Isso tudo tem ajudado muito, devolveu ao mercado algo próximo de 1,3 milhão de pessoas que não estariam lá. O problema é que o estímulo já atingiu seu pico.” No ano que vem, se nada de novo surgir, a previsão é de que as taxas de desemprego atinjam índices abaixo da expectativa.

O que terminou com o desemprego durante a crise de 1929 foi a Segunda Guerra Mundial, quando praticamente 40% do PIB nos Estados Unidos eram destinados à produção de artigos militares. “Foi necessário algo assim para curar a Grande Depressão”, finalizou

Mesmo que não tenha ajudado a conter o surgimento da crise, olhar para a história ajuda a compreendê-la e saber quais os próximos passos a serem tomados. Historicamente, países afetados por crise demoram, em média, 4,8 anos para recuperar os índices de desemprego normais. Os Estados Unidos, geralmente acostumados a taxas na casa dos 7%, hoje tem 10,2 e esse número deve crescer até 12%. “Na média, o desemprego cresce por até 5 anos. Isso significa que a situação persistirá até 2013 e que estamos diante de um longo período de depressão para o mundo desenvolvido.”

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